Uma sensível avaliação das Rodas de Convivência e Cultura de Paz

Ao concluirmos o processo das 20 Rodas de Convivência (auscultas socioculturais), em 22 de abril de 2009, ainda em Belo Horizonte (MG), por um instante, em meio à beleza natural de um parque centenário, situado no centro da metrópole, foi possível refletir à sombra de uma árvore. Tudo ali era presença, quietude e possibilidades: pessoas, animais, vegetação, flores e equipamentos de lazer e cultura. Conjunto vivo e mutável, convite a integração dos sentidos e da percepção cognitiva. Assim foi o processo das auscultas: único, um ensaio e um cantar de uma nova canção, um canto diferente que ressoa.

Convergência de novas mídias, de tecnologia social e cultural na convivência, para construção de outros paradigmas potenciais para a cultura de paz. Acesso, aprendizado coletivo, pesquisa legítima, apropriação de novas linguagens, divulgação e multiplicação são fatores necessários para ampliar redes sociais e de comunicação criativa. Todos esses fatores foram amplamente relacionados aos conteúdos surgidos nas Rodas de Convivência, o que proporcionou uma reflexão apurada para a aproximação das políticas públicas que mediam ações socioculturais.

Ausculta Sociocultural – conceito e proposta

A Ausculta sociocultural é uma técnica participativa de diálogo mais profunda que a escuta intercultural, onde temos atores diversos que se escutam. O resultado é uma nova síntese e um saber comum sobre convivência e cultura de paz. De agosto de 2008 a abril de 2009, o desenvolvimento das auscultas realizadas pelo Pontão buscou promover a confiança entre os atores para possibilitar a construção de laços permanentes; o rompimento da distância entre pesquisador-pesquisado; o cultivo da cultura da construção comum; a confiança presente desde a convocação para a roda, a clareza dos objetivos, do processo, da devolução sociocultural; o ambiente de informalidade e espontaneidade estabelecendo um movimento lúdico, criativo, poético e artístico, desde o início das ações. A diversidade e o entendimento de que um grupo é composto de várias singularidades e diferenças e o reconhecimento da contribuição individual de cada um foi essencial no processo. A centralidade do local de origem foi a premissa do trabalho, porque possibilitou um estar mais à vontade a partir de um pertencimento ao território e comunidade, o que tornou possível ao participante dizer e sentir o que percebe e intui.

Critérios para a escolha
Segundo o Ministério da Cultura, existem cerca de 820 Pontos de Cultura no Brasil atualmente. Para a escolha de 20 deles, foram estabelecidos alguns critérios. A distribuição geográfica em diferentes regiões do país, a diversidade cultural e o público jovem foram os que prevaleceram. No que diz respeito a diversidade, buscou-se atingir comunidades indígenas, afrobrasileiras, movimento hip hop, novas tecnologias, culturas populares, estudantes, entre outros. Também foram considerados os Pontos que trabalham em rede, pois assim a ação é divulgada e ampliada, como no caso dos Pontos da rede da prefeitura de Diadema e Guarulhos.

Alguns já eram conhecidos por membros da equipe, outros indicados pelo MINC e parceiros. Em alguns casos, os próprios Pontos de Cultura solicitaram ser auscultados. Todos os escolhidos são considerados potenciais multiplicadores das ações de cultura de paz e convivência.

O Pontão buscou articular pontos no território e potencializar sua experiência. Articulamos cerca de 500 jovens em nossas atividades em 10 estados. Por volta de 150 pontos estiveram presentes em nossas ações (nos estados, na Teia, na Bienal de Cultura, no Fórum Social Mundial) e cerca de três mil pessoas participaram de nossos eventos no país. Se considerarmos o raio de ação através de nossos materiais e site, teremos um número ainda maior de atingidos.

Abrangência
Certamente os números não explicam tudo. O mais importante é a relação com os paradigmas em construção. Levamos a estes pontos uma nova cultura que diz respeito aos grandes desafios contemporâneos que estão relacionados ao ato do conviver e da construção de uma cultura de não violência que aponta para a superação da violência direta, estrutural e cultural.

Pela primeira vez, nos pontos de cultura os jovens estiveram em contato com essas possibilidades de mudanças culturais. Através das Rodas de Convivência e Cultura de Paz lançamos o desafio de fortalecer a autoestima dessa juventude, sua capacidade criativa, sua autonomia, protagonismo e alternativas de convivência e resolução dos conflitos, além de povoar seu imaginário de poéticas intensas a partir da localidade. Ao mesmo tempo, operamos aproximações entre pontos de cultura por meio de encontros, diálogos e notícias no site. Através da Teia, do Fórum Social Mundial e de nossa presença na Comissão Nacional dos Pontos de Cultura e da Comissão Paulista de Pontos de Cultura, reverberamos nossa ação em rede, propondo atividades e políticas relacionadas com a convivência e cultura de paz.

A partir da reflexão de como as auscultas podem enriquecer e fortalecer a sociedade civil e subsidiar as políticas públicas culturais, concluímos que a artemetodologia das rodas de convivência contribui para legitimar o lugar central da cultura de paz em qualquer organização, entidade, movimento ou espaço. Fortalece, portanto, os diversos contextos para transformação da visão de cultura de guerra e paz na sociedade; facilita a mobilização de jovens e adultos para a importância do tema convivência e cultura de paz, presença na diversidade; bem como favorece o contato, a aproximação e o mapeamento de diversas expressões culturais alcançadas pelo Programa Cultura Viva através dos Pontos de Cultura (nas rodas de convivência e por meio da pesquisa quali-quantitativa; novas relações estado-sociedade; contribuição para as políticas públicas e construção de um paradigma de país; devolutiva para cada Ponto de Cultura através de relato e material de registro audiovisual, disponibilização de dados das rodas por meio de peças de comunicação e site do Pontão).

Desta forma, os resultados principais foram: adesão aos temas por parte dos pontos de cultura auscultados; a criação da cultura de uma Cultura de Paz como referência nos pontos de cultura; o fortalecimento das Atitudes de Paz; os Diálogos Interculturais; propostas de ações de Cultura de Paz; a formulação e as indicações para as políticas públicas de Cultura de Paz (discutidas e legitimadas a partir da sistematização e análise dos dados das auscultas socioculturais locais); pesquisa quali/quanti em 824 pontos de cultura e dos diálogos interculturais como base para construção de diretrizes e políticas.

Escolhemos o caminho de criar artemetodologias de cultura de convivência e paz para o início do trabalho para ouvir os jovens, auscultá-los com rigor, com sintonia fina, perceber os seus ruídos interiores para melhor compreendê-los. Percebemos que as políticas públicas são elaboradas sem auscultas, sem saber desses ruídos. Criamos uma ambientação poética para acolhê-los a partir da sua realidade cultural, por meio de um cenário em roda, com uma pedagogia da circularidade, em uma construção participativa, afetiva e emotiva, que possibilitasse o nascimento de uma relação de confiança e transparência. Abrimos possibilidades de criação simbólica (símbolo comum), um ambiente de desarmamento das mentes e de convergência de afetos; criamos um mapa da convivência e ouvimos os jovens sobre propostas de políticas públicas.

Por que artemetodologia das auscultas? Porque a arte trabalha subjetividades, sentimentos íntimos, grandezas existenciais, a vida como obra de arte e também como linguagem expressiva. E isso cria uma forte identidade com a vida dos jovens, seu imaginário criativo e seu anseio de pertencimento a linguagens e coletividades. A idéia é que esta artemetodologia esteja captando com suas antenas a realidade de outros atores e protagonistas, não apenas nos pontos de cultura.

As auscultas contribuíram efetivamente para revelar aspectos e práticas dos pontos de cultura e seus integrantes que compreendem: a promoção de diálogo intercultural; o empreendedorismo social e protagonismo juvenil crítico-criativo; interlocução entre diferentes gerações; a diversidade cultural e de identidades; a valorização do patrimônio cultural material e imaterial – registro e valorização da memória, tradição e história local; valorização das expressões e ambiente locais; incentivo às novas gerações pela transmissão de conhecimentos, práticas e formas de expressão tradicionais; promoção da produção coletiva e do trabalho cooperativo; acesso aos meios de fruição, empoderamento, produção e formação cultural; geração de formas alternativas de sustentabilidade no território.

Por outro lado, concluímos com as Auscultas Socioculturais, que os Pontos de Cultura já trabalham na perspectiva da cultura de paz: eles são verdadeiros pontos de paz, que desenvolvem atitudes de não violência e que ainda não tinham revelado a ligação com essa temática.

Finalizada a primeira etapa do projeto percebemos que ainda temos um horizonte pela frente de construção e conquistas. Nosso trabalho demonstrou a força de transformação que a cultura de paz pode assumir frente ao Programa Cultura Viva e pontos de cultura. Fica a questão: Qual é o ponto de paz e a paz no seu ponto?

As Rodas de Convivência e Cultura de Paz foram um caminho apropriado para esse primeiro ano de trabalho do Pontão de Convivência e Cultura de Paz. Ouvir, permitiu compreender a realidade em que nos situamos, nos aproximar dos Pontos de Cultura, das dinâmicas jovens, do pertencimento local e perceber as potências que estão sendo criadas pelo pontos numa atividade de fortalecer a diversidade cultural do país e “desesconder o Brasil”, como afirma Célio Turino – secretário da Cidadania Cultural (MinC), mostrando um país invisível e oculto, porém forte e vital.

* Este texto é uma produção coletiva da equipe do Pontão Temático de Convivência e Cultura de Paz


2 Comentários

  1. Enviado em novembro 26, 2009 às 3:30 pm | Link

    Eu adorooooo aqui no site de vcs meus amigos. A juventude Amazônida acredita na arte, na troca de saberes, na roda de conversa, nos ritos e tradições como elos

  2. Enviado em novembro 26, 2009 às 3:42 pm | Link

    Eu adorooooooooo vim por aqui.
    A Juventude Amazônida agradece.
    Acreditamos que a arte, as rodas de troca de saberess, de conversa, contação de histórios, cantos, danças e ritos são elos que que fortalecem a Cultura de Paz. Os povos da era de aries realizam belos cultos a dividade existente no plano terrestre. Rito que envolvia danças, cantos, vivência e convivência. Hoje vivemos na era de aquario, uma era onde as maquinas assumiram nossas vidas. Estão em todos os lugares. Tudo que fazemos é andar na direção dos trabalhosss, de “ganhar a vida”. Existe uma crise mundial que vai para alem das crises ecônomicas, étnicas, sociais, culturais, estamos vivendo uma CRISE DE PERCEPÇÃO, ela cega todos os nossos olhos, fisicos e não-físicos.
    Aqui na Amazônia, região de muitos credulos e com forte influência indígena vemos as aldeias se incluirem no processo de degrado, de desarmonia.
    Possibilitar esse tempo de ouvir o outro, de envolver a comunidade em discussões que são de seu interesse e realidade, desenvolvendo um diagnostico coletivo e participativo é o caminho para a construção de uma sociedade sustentável principalmente nas relações humanas.
    Práticar a solidáriedade, a pluralidade são sementes que afloraaam o REENCANTAMENTO DO MUNDO.

    abraçoooooo Amazônicos meus amigos do Pontão de Paz!

    Samir Raoni

One Trackback

  1. [...] da convivência à 20 pontos de cultura de todo o país, por meio das Rodas de Convivência (leia artigo sobre essa avaliação). Mas o Pontão não parou por aí e promoveu também uma pesquisa que envolveu os mais de 800 [...]

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