Metodologias de escuta sensível e educação para a cultura de paz são temas de Sessões de Diálogo

dsc01072Metodologias de escuta sensível e a educação para a cultura de paz foram assuntos que ganharam destaque em duas sessões de diálogo organizadas pelo Pontão da Convivência e Cultura de Paz em março. Experiências teatrais que intensificam a convivência foram relatadas por Alexandre Santini, integrante do grupo de teatro Tá na Rua (que também é ponto de cultura) do Rio de Janeiro. Ele compartilhou o trabalho realizado pelo grupo, criado por Amir Haddad há mais de 20 anos, que desenvolve uma linguagem teatral onde o grande protagonista é o espaço público e a intervenção social. “Não partimos de uma referência teórica para chegar a esta metodologia da escuta teatral. A experiência prática que forjou isso e ela é o critério de nossa verdade”, afirmou.

Alexandre relatou experiências de apresentações em comunidades do Rio de Janeiro e de outras cidades do país comprovando a máxima de que o teatro pode ser um mecanismo de intervenção da realidade. Como exemplo, citou um trabalho desenvolvido pelo grupo em Anchieta, no Espírito Santo, onde mais de 2 mil pessoas (praticamente todo a população local) participou da montagem teatral. Isso mostra a intrínseca relação entre teatro e espaço público; e a cidade enquanto possibilidade de criação teatral.

dsc01081Na sequência, o poeta e coordenador do Pontão, Hamilton Faria apresentou os projetos e ideais que prepararam a chegada do Pontão e de suas Rodas de Convivência e Cultura de Paz. Tais como o trabalho na área de desenvolvimento cultural do Pólis, a formação de redes, as aulas públicas, a criação do Fórum Intermunicipal de Cultura. Ações que começaram a fortalecer o entendimento de ouvir para compreender, base da cultura de paz. Já a educadora do Pontão, Martha Lemos, compartilhou com todas as pessoas presentes a experiência das Rodas com os pontos de cultura, explicando um pouco de sua metodologia e das impressões diversas que surge em cada atividade realizada. Os outros educadores, Ira Oliveira e Alexandre Sammogini também dividiram a preparação que eles próprios tiveram que passar para auscultar os jovens, sem idéias pré-concebidas. No debate, o público apontou alguns desafios, como transformar as necessidades apontadas pelos jovens nas rodas em políticas públicas, substituir a ideologia pela dialogia e a criação de um novo paradigma, onde as pessoas se conheçam e se compreendam.

Educação na Cultura de Paz

Em 17 de março foi a vez da educadora e filósofa da fundação Palas Athena, Lia Diskin, compartilhar seu valoroso conhecimento com os participantes da Sessão de Diálogo. Lia traçou um histórico sobre a trajetória, conceitos e ações da cultura de paz, propostos pela Unesco. Para começar, ela deixou claro a necessidade de saber onde estamos inseridos enquanto integrantes da vida na terra. “Entre a ordem do cosmos e a sabedoria biológica, temos um projeto inacabado: o ser humano”, afirmou.

dsc01106A primeira vez que o termo cultura de paz surgiu, foi no Fórum Internacional sobre a Cultura de Paz, realizado em San Salvador (El Salvador), em 1994. Nesta ocasião. Se discutiu a ligação entre educação e cultura de paz, além de novas técnicas para gerenciar a resolução pacífica de conflitos, não os ignorando, mas os destacando como algo natural em uma democracia.

A declaração de Sevilha também foi um momento importante pois reuniu diversas pessoas para assinalar que a violência não é algo natural da espécie humana e que portanto não tem explicação biológica, sendo uma construção cultural. Ao contrário da agressividade e dos conflitos, sentimentos naturais dos seres humanos e que devem ser valorizados como forma de dialogia e entendimento.

Segundo a Unesco há oito áreas de atuação da Cultura de Paz: educação, economia sustentável, direitos humanos, equidade de gênero, participação democrática, compreensão e tolerância, comunicação e livre fluxo de informações e conhecimento; paz e segurança. Neste sentido, a cultura de paz possui três níveis: filosofia e escolha de vida, reguladora de conflitos, estratégia política para transformação da realidade.

Lia destacou alguns focos para refletir e agir na construção da cultura de paz, tais como a legitimação do conflito; a redefinição de valores; a democratização dos processos e conteúdos; o desenvolvimento da capacidade crítica; as novas tecnologias de convivência; o comprometimento com os direitos humanos e a sustentabilidade social e ambiental.

Como novas tecnologias de convivência se entende o diálogo, a mediação, a justiça restaurativa, a comunicação não-violenta, os jogos cooperativos e as dinâmicas relacionais. “É importante saber em que o outro pode me ajudar; como posso aprender com ele. No diálogo a ênfase está na troca, no que se pode somar. Neste ponto a hospitalidade é um sentimento muito importante”, acredita Lia.

Ela lembrou os sete pontos que podem destruir o ser humano segundo os ensinamentos de Gandhi: riqueza sem trabalho; prazer sem responsabilidades; conhecimento sem valores; negócios sem ética; ciência sem compromisso humano; religião sem altruísmo; política sem princípios.

“A vida sempre nos surpreenderá. A cultura de paz é um anseio coletivo da humanidade e uma aposta da renovação da capacidade espiritual e intelectual das pessoas”, finalizou.


4 Comentários

  1. Rosimeri Pavanati
    Enviado em junho 7, 2009 às 9:11 pm | Link

    Maravilhoso trabaho estamos incentivando os princípios da cultura de paz na pedagogia do esporte para crianças e adolescentes… estudei conteúdos do site de vcs, como também de outros, para minhas para subsididar projetos de capacitação dos professores do SESC em rede nacional.
    Muito Obrigada.
    Um abraço

  2. Afonso Alves de Oliveira Sobrinho
    Enviado em fevereiro 5, 2010 às 3:21 pm | Link

    Estamos organizando um projeto para ensinar judô a alunos de três escolas da Rede Pública Estadual em São Gonçalo – RJ, e no desdobramento do projeto colocamos várias palestras/oficinas com objetivo de envolver pais, alunos e professores. A primeira rodada será sobre a Cultura da Paz, por este motivo busquei o tema para pesquisar, e encontrei este site, que até o momento fiz a primeira leitura e fiquei enrriquecido com o maravilhoso trabalho de vocês, sobretudo com a metodologia da auscuta sensível, é o que eu buscava.
    Parabéns

  3. ROSANE KOHL BRUSTOLIN
    Enviado em maio 21, 2010 às 12:36 pm | Link

    Imprescindível esse trabalho… inicio uma jornada de estudos para viabilizá-lo como metodologia de pesquisa em dissertação de mestrado na UCS/Rs.
    Se tiverem algo para agregar, agradeço
    Rosane

  4. dgreeb
    Enviado em setembro 29, 2010 às 3:23 pm | Link

    Olá Afonso! Estávamos sem manutenção no site e portanto estou respondendo sua mensagem somente agora. Gostaríamos de acompanhar suas atividades, se tiveres algum link, onde possamos ver fotos, ou alguma noiticia sobre o trabalho em andamento.
    De qquer forma, incluimos seu contato no nosso mailling para que possas continuar acompanhando nossas ações e vc pode nos acompanhar tbém via http://www.twitter.com/pontaodapaz.
    att, Francele Cocco (Comunicação Pontão)

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  1. [...] Metodologias de escuta sensível e a educação para a cultura de paz foram assuntos que ganharam destaque em duas sessões de diálogo organizadas pelo Pontão da Convivência e Cultura de Paz em março. Em 13 de março, experiências teatrais que intensificam a convivência foram relatadas por Alexandre Santini, integrante do grupo de teatro Tá na Rua (que também é ponto de cultura) do Rio de Janeiro. O poeta e coordenador do Pontão, Hamilton Faria e a também educadora do Pontão, Martha Lemos, compartilharam as experiências das Rodas de Convivência. Em 17 de março foi a vez da educadora e filósofa da fundação Palas Athena, Lia Diskin, compartilhar seu valoroso conhecimento com os participantes da Sessão de Diálogo. Lia traçou um histórico sobre a trajetória, conceitos e ações da cultura de paz, propostos pela Unesco. Para começar, ela deixou claro a necessidade de saber onde estamos inseridos enquanto integrantes da vida na terra. “Entre a ordem do cosmos e a sabedoria biológica, temos um projeto inacabado: o ser humano”, afirmou. Saiba mais. [...]

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