O trabalho realizado nesta primeira etapa do Pontão levou os conceitos de cultura de paz e da pedagogia da convivência à 20 pontos de cultura de todo o país, por meio das Rodas de Convivência (leia artigo sobre essa avaliação). Mas o Pontão não parou por aí e promoveu também uma pesquisa que envolveu os mais de 800 pontos que integram o Programa Cultura Viva. “A intenção era identificar o modo como os pontos de cultura se referem e vivenciam a noção de cultura de paz, de diferentes olhares”, conta Alexandre Barbosa, um dos pesquisadores que integrou o projeto.
A investigação mostrou que os pontos já desenvolvem a cultura de paz, mesmo que não a reconheçam claramente. Isso porque ainda existe um certo desconhecimento e estereótipo cercando a ideia de cultura de paz. “A grande descoberta da pesquisa foi perceber que todos os pontos trabalham com a noção de cultura de paz a partir das suas particularidades”, afirma Ana Paula do Val, outra pesquisadora da equipe.
A seguir, leia entrevista com os pesquisadores que participaram do trabalho. Eles falam sobre as dificuldades, metodologias e conclusões dessa pesquisa que contribuiu consideravelmente para clarear, junto aos jovens, o conceito e as ações que fazem parte de uma cultura de paz.
Por que a opção de se fazer uma pesquisa quali e quanti sobre a questão da cultura de paz e convivência nos Pontos de Cultura?
Alexandre Barbosa - A intenção era identificar o modo como os pontos de cultura se referem e vivenciam a noção de cultura de paz, de diferentes olhares. Para isso, optamos por uma pesquisa qualitativa e quantitativa por acreditarmos que este seria o melhor instrumento para identificar as práticas destes grupos e apreender como elas dialogam ou não com a noção de cultura de paz.
Quais foram as principais dificuldades durante o processo de investigação nos pontos?
Beatriz Vieira - As principais dificuldades durante o processo de investigação foi contactar por e-mail ou telefone os pontos de cultura de todo o território nacional, pois há uma grande desatualização nos dados destes grupos nas bases disponíveis. Por outro lado, há uma grande saturação de pesquisas e questionários que são enviados a eles, o que acaba por desestimulá-los a responder novas pesquisas, que muitas vezes trazem conteúdos parecidos. Outra grande dificuldade da pesquisa foi com relação ao próprio tema a que ela se referia: a cultura de paz e pedagogia da convivência. Isto porque esta é uma temática nova com a qual muitos pontos de cultura ainda não têm familiaridade.
A parte instrumental da pesquisa foi realizada em três blocos. Qual a razão de usar este tipo de método?
Ana Paula do Val - Para a elaboração da pesquisa nos norteamos por dois caminhos: o do discurso e o da prática. Trabalhamos com insumos produzidos das bases conceituais e teóricas que orientaram todo o processo de elaboração do instrumental. Este foi o questionário, constituído em três blocos: a caracterização, práticas e cultura de paz e pedagogia da convivência.
No primeiro bloco do instrumental fizemos a caracterização dos pontos de cultura. Identificação do ponto, do entrevistado, áreas prioritárias de atuação, público atendido, atividades desenvolvidas (contemplando faixa etária, número de vagas e freqüência das atividades), relações entre o ponto e seus usuários e a localidade, atividades de formação dos agentes culturais, outras relacionadas à economia da cultura e formas de gestão administrativa dos Pontos. Este primeiro bloco teve como objetivo identificar a maneira com que eles trabalham suas atividades, se o Ponto tem alguma interlocução com os usuários e as comunidades e se existem preocupações relacionadas à geração de renda através da cultura. Enfim, uma breve caracterização dos Pontos trouxe uma série de insumos para entendermos como eles se articulam no território e como estabelecem relações de convivência entre seus interlocutores e entre si.
No segundo bloco relacionamos suas práticas cotidianas, os insumos teóricos e conceituais convencionados para a pesquisa e a diversidade tipológica e de públicos dos Pontos de Cultura. Neste momento, o objetivo foi identificar práticas de cultura de paz e convivência e como os pontos lidam com as questões referentes à exclusão social e violência, afirmação de identidade cultural, participação da comunidade na programação e funcionamento do ponto, como lidam com os conflitos e discriminação no seu dia a dia e sua relação com o meio ambiente e o protagonismo juvenil. Estas questões foram direcionadas ao dia a dia de cada Ponto de Cultura, com o objetivo de detectar estas temáticas na rotina e como elas são tratadas por eles e pelas comunidades. Este segundo bloco identificou se os Pontos de Cultura tratam ou não tais questões e de que forma, levando em consideração que tudo o que foi perguntado estava diretamente ligado à cultura de paz e convivência, sem falar claramente sobre a temática especificamente no questionário, pois a idéia era identificar outras práticas de paz e convivência, fora do contexto dos universalismos.
O terceiro bloco foi responsável pelo que chamamos de formação e aproximação do tema com os Pontos de Cultura, sem perder de vista outras contribuições que os Pontos poderiam trazer, além dos que explanamos no bloco. Pela primeira vez falamos sobre a cultura de paz e convivência no questionário, pois até então só havíamos relacionado a temática às práticas cotidianas dos pontos, mas não tínhamos relacionado os temas com as perguntas. Nesta parte foram apresentados textos referentes à cultura de paz e convivência acompanhados de questões relacionadas aos mesmos. As questões formuladas que acompanharam os textos tiveram a preocupação de relacioná-los com práticas e personagens locais dos pontos de cultura.
O discurso da cultura de paz e a pedagogia da convivência é algo novo para os jovens dos pontos. No entanto, a pesquisa fala que a prática desses grupos já promove uma cultura de paz. Qual a razão dessa “diferença”?
Alexandre Barbosa – A diferença entre o discurso e a prática da cultura de paz e da pedagogia da convivência, principalmente entre os mais jovens, deve-se em, alguns casos, a um desconhecimento desta temática e, em outros, a uma desconfiança em relação à discussão mais geral e midiática sobre a paz. Muitos pontos de cultura, entretanto, praticam a cultura de paz principalmente por meio da promoção da diversidade local. Estes grupos apesar de praticarem a paz, não denominam suas práticas como tais.
Depois de ouvir tantos pontos de cultura, qual a contribuição que você acha que essa pesquisa irá trazer para o fortalecimento da ação e do conceito de cultura de paz?
Beatriz Vieira - A primeira forma de contribuir para este fortalecimento da ação e do conceito da cultura de paz é dar uma devolutiva da pesquisa para os grupos, para que os mesmos apontem questões ou discordem. Outra forma importante de fortalecer essa ideia é por meio da produção e divulgação de materiais informativos e didáticos sobre este tema, que contribua para ampliar a reflexão, pois a pesquisa revelou que praticamente todos os pontos de cultura encontram-se abertos a discussão do tema e querem receber materiais para saber mais. De certa maneira, a própria investigação contribuiu para gerar uma reflexão inicial entre os pontos de cultura que nunca tinham parado para pensar nesta noção de cultura de paz e no quanto suas práticas se alinhavam ou não a promoção da cultura de paz e da diversidade sociocultural.
Os pontos podem trazer um novo olhar sobre a cultura de paz?
Ana Paula do Val - Certamente que sim. A grande descoberta da pesquisa foi perceber que todos os pontos trabalham com a noção de cultura de paz a partir das suas particularidades. Os pontos de cultura desenvolvem, cada um a sua maneira, uma forma de praticar a paz a partir de suas ações locais. Um dos pontos, ao tratar da importância de mostrar a força de sua cultura para se conseguir respeito e conquistar direitos, citou a frase de um ancião Xavante que ilustra bem esta questão: “ninguém respeita aquilo que não conhece”.
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