Coco de Umbigada – Olinda (PE)

dsc02137A Roda de Convivência e Cultura de Paz chegou ao estado de Pernambuco, conhecido como um dos mais ricos e diversos culturalmente do país. A equipe de oficineiros/as foi até a cidade histórica de Olinda, em 6 de abril, que abriga o Ponto de Cultura Coco de Umbigada, centro de referência de produção, pesquisa e acervo de cultura popular, em especial o coco. Lá são desenvolvidas atividades de percussão, oficinas de teatro de bonecos e recitais de poesia para crianças, jovens e adultos. Candeia, grande mestre do samba, já dizia que um país que não valoriza a cultura popular nunca chegará a ser uma nação. Por isso, a valorização da cultura popular é algo fundamental e é esse o eixo central do trabalho desenvolvido no Coco de Umbigada.

Em 12 de março, Olinda completou 474 anos, em meio a maracatus, cocos, sambas, cirandas, mamulengos e paradoxalmente, repressão e violência às manifestações populares. O coco é uma das mais tradicionais danças da cultura pernambucana que traz a ancestralidade dos ritmos afrobrasileiros, com estilos variados e forte influência africana e indígena: Coco de Roda, Coco de Praia, Coco de Salão, Coco de Rojão, Coco de Furada, Coco de Umbigada, entre tantos outros. O Centro Cultural Coco de Umbigada representa o resgate da memória do coco em Pernambuco e no Brasil.

Há dez anos, o Ponto de Cultura realiza a Sambada de Coco, uma forma de comunicação que envolve os mestres do coco de umbigada e suas vertentes, que realizam a troca dos saberes da matriz africana com o público presente, por meio de brincadeiras que estimulam o canto e a dança. A ação da Sambada também é vitrine dos resultados das oficinas arte-educativas produzidas pelo Ponto de Cultura na comunidade e em escolas públicas do bairro de Guadalupe há, pelo menos, 4 anos ininterruptos. Mas apesar de tanta riqueza cultural, a comunidade do Ponto de Cultura enfrenta a violência, a intolerância e a repressão da polícia militar e civil.

A sambada é uma tradição do século passado que ficou por quase 40 anos silenciada com a morte dos mestres. Em junho de 1998, Beth de Oxum, coordenadora do Ponto e uma das lideranças mais ativas do Coco de Umbigada em Olinda, retomou a luta pela tradição ancestral da Sambada na comunidade junto com seu marido e os filhos (neto e bisnetos dos saudosos coquistas). A Sambada, que começou no terreiro da casa de candomblé de Beth, se fortaleceu a tal ponto que conquistou as ruas de Olinda, mobilizando um público aproximado de 2 mil pessoas entre coquistas, mestres griôs, artistas, produtores culturais, educadores, gestores públicos, turistas, agentes jovens, a comunidade e seu entorno.

Mas durante a sambada de dezembro de 2008, um policial que chegou embriagado a festa, causou confusão, agrediu verbalmente e fisicamente seus participantes, dizendo que “aquela macumba tinha que acabar”. O abuso de autoridade do policial, deixou a todos atônitos e mobilizou a comunidade na defesa da sambada. Foi então que o horário foi alterado das 19h a meia noite (antes era das 22h as 5h). No entanto, a perseguição continuou e em fevereiro de 2009, em uma ação que beirou o surrealismo, 40 policiais militares e civis, incrivelmente armados e com 10 viaturas, chegaram até a sambada para impedir que ela fosse realizada.

Beth conta que os policiais que comandaram a ação, Major Marcos Pereira e seu irmão, Capitão Daniel Pereira, são moradores da comunidade do Guadalupe e, por serem de família evangélica, não aceitam, toleram ou respeitam o trabalho realizado pelo Ponto de Cultura. Durante a ação policial, foram apreendidos os instrumentos e inclusive uma zabumba ancestral usada em todas as sambadas. As crianças que realizavam o Coco de Umbigadinha quando a polícia chegou, tiveram seus instrumentos retirados a força. Muitas estão traumatizadas, sem querer mais cantar.

A perseguição causou a indignação não apenas da comunidade, mas de setores do poder público, pontos de cultura e Ministério da Cultura, que se manifestaram em apoio ao Coco de Umbigada e seu importante trabalho de preservação da cultura popular brasileira. Além disso, os integrantes do ponto, mostraram como a resistência pacífica e a cultura de paz podem se sobrepor a truculência e a violência.

A Roda


Contextualização feita, tratemos da Roda de Convivência e Cultura de Paz. Os oficineiros Alexandre Sammoggini e Martha Lemos foram recepcionados por Ivo, um dos jovens do ponto que logo colocou sua opinião sobre a cultura de paz: “Eu acho que a visão básica sobre a paz não é só todo mundo dar as mãos, caminhar e cantar. É saber que a pessoas que estão ao seu lado não são apenas um pedaço de carne, ou um ser qualquer, mas sim um irmão, não naquela visão católica, mas um irmão que você pode ajudar. Eu acredito que o primeiro passo para essa cultura da paz tem de vir de cada um. E a maior prova de força de paz é a campanha que a gente vem realizando: DIGA SIM A SAMBADA DE COCO, DIGA NÃO A VIOLÊNCIA. Nela, não foi apenas o centro cultural do Coco de Umbigada que aderiu, mas a rua, os músicos, os comerciantes. Essa é a maior prova de que nossa cultura dentro da comunidade do Guadalupe é importante, não só culturalmente, como experiência, mas como formação de jovens e de cidadãos”, acredita.

A Roda tem início com a apresentação dos objetivos e valores do Pontão e também com o compartilhar das impressões das outras rodas realizadas em pontos de cultura de todo o país, por parte dos oficineiros. É quando cada participante comunica o que trouxe para a Roda, como novos conhecimentos, solidariedade, coco de umbigadinha, vivência da paz, diálogo. O grupo passa então a refletir sobre ações que fortalecem a convivência, a valorização da ancestralidade e da cultura popular, eixo central do trabalho do Ponto. “Acho que a convivência é isso, é o exercício prático da não violência, da tolerância, da não discriminação”, afirma Dani Bastos.

“A gente procura vivenciar um trabalho pedagógico voltado a conteúdos comportamentais onde a criança começa a ver a questão da ética, do respeito e da cidadania. Atualmente a gente fez uma discussão na escola sobre a água e sua importância, colocando as crianças nesse processo de argumentar, contra-argumentar, questionar, colocar suas ideias, preparando-as como cidadãs”, conta Glauciane – coordenadora pedagógica, sobre a relação ponto, escola e comunidade. Experiências como essas, trazidas pelos participantes, de suas ações na escola e na comunidade trouxeram um rico conteúdo para reflexão sobre a cultura de paz, já que as histórias e fatos concretos relatados levaram a mudança de atitudes e pensamentos.

A roda foi marcada pelo encontro intergeracional. Diversas crianças participaram da atividade, levando a espontaneidade inerente a elas e também a contribuição com seus valores e percepções. No momento em que se fala sobre cultura de paz e de guerra, surgem depoimentos como o de Aurinha do Coco, uma renomada coquista que fala sobre a falta de oportunidades para os artistas populares. “Nós aqui somos um celeiro, riquíssimos em cultura. E é assim: tudo que a gente faz é com muito amor, muito carinho. Infelizmente não temos incentivo, a falta de união é muito grande, principalmente por parte das prefeituras, nós não temos incentivo. As pessoas de fora dão bem mais valor que as pessoas de nossa cidade. Isso deixa a gente muito triste”.

Rayane, uma menina 8 anos, relembra de sua reação não violenta diante da truculenta ação da polícia. “Quando a gente ia começar a cantar, daí chegou a polícia. Aí começou a tomar os instrumentos. Quando eles iam passar derrubaram os caixas, as congas e o zabumba que tem muitos anos, que nem todos sabem. E também começaram a bater com as congas na gente. Daí a gente começou a gritar ‘ão, ão, ão, polícia é ladrão’. Depois continuamos com ‘queremos coco, queremos coco’.

“Como é que podemos trabalhar a cultura de paz em um ambiente de violência? Acho que é assim: a comunidade unida, insistindo. Porque quem tem que insistir é a própria comunidade, a Beth, o Centro Cultural Coco de Umbigada em conjunto com nossos artistas como Aurinha. Olinda é um celeiro, mas tem o celeiro A e o B. O celeiro A é ressaltado, está nos quatro cantos. O celeiro B são os excluídos que são chamados para os eventos de carnaval. Isso também é uma violência. Então a união da comunidade é que vai fazer derrubar essa violência. Acho que a Cultura de Paz é isso, é isso que as crianças fizeram com a polícia” , acredita Verônica.

Como figuras de cultura de paz, o grupo nomeou todos os mestres e mestras coquistas de Guadalupe e região e, em especial, uma menção a Beth de Oxum, guerreira da paz e aos participantes da Sambada, como referência de cultura, arte, simplicidade, experiência e sabedoria. “A gente está aqui há 10 anos, fazendo a inclusão cultural, digital e fazendo a brincadeira do coco, para tornar uma coisa do cotidiano, da auto-estima aqui da comunidade. Nessa perspectiva de discutir a Cultura de Paz, a questão da não-violência, fiquei muito contente com a possibilidade de vocês virem, principalmente neste momento que a gente está sendo violentado mais do que nunca”, disse Beth.

Como sugestão de políticas públicas surgiram questões como: criar e potencializar espaços criativos de cultura popular nos espaços públicos, ocupando a cidade de forma ordenada pela cultura local; ampliar a rede de cultura de paz em escolas públicas, pontos de cultura, associações de bairro, entidades e atores do poder público; articular a militância no país, em torno do tema da cultura de paz a partir das classes vitimizadas e inferiorizadas (principalmente os negros); Disseminar os direitos e articulação das mulheres, incluindo na pauta das ações dos pontos de cultura, a questão de gênero; qualificar e ampliar a informação cidadã que compete as instâncias públicas e jurídicas do poder público para que se tornem de fácil acesso a qualquer cidadão, como exemplo, a possibilidade de denunciar e formular ação no Ministério Público diante de situações de violência e maus tratos; apoiar e capacitar os movimentos de resgate da memória ancestral e brincadeiras da cultura popular no Brasil, através dos pontos de cultura e demais atores sociais; difundir o direito a comunicação e informação democratizada através de mídias autênticas e rádios comunitárias por todo Brasil.

Presente desde antes do início da roda, a mesma zabumba apreendida pela polícia em fevereiro de 2009, foi recuperada e tocada a amplos pulmões na Sambada realizada em 6 de abril. A zabumba que enganou o tempo e as circunstâncias, foi eleita pelos participantes o objeto símbolo da roda.

A experiência do Ponto do Coco de Umbigada mostra a força da resistência pacífica, por meio da arte e da cultura ancestral, da auto-estima e do empoderamento, muito mais forte que a violência e a intolerância daqueles que acreditam que o poder está em uma farda ou em uma arma.

Para saber mais sobre o Ponto Coco de Umbigada, acesse: http://sambadadecoco.blogspot


Um Comentário

  1. Ricardo Veloso
    Enviado em maio 23, 2009 às 5:49 pm | Link

    Esse trabalho é de suma importancia pra cultura ainda mais partindo de Beth da Oxum e Kinho Caetes

One Trackback

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