Grãos de Luz e Griôs – Lençóis (BA)

capaAncestralidade, sonoridade, oralidade e corporeidade foram alguns valores que estiveram presentes na primeira Roda de Convivência e Cultura de Paz realizada na Bahia de todos os santos. O ponto que recebeu a atividade foi o Grãos de Luz e Griôs, localizado na cidade de Lençóis (distante 410 km de Salvador), no parque nacional da Chapada Diamantina, um dos mais lindos paraísos naturais do Brasil e do mundo. O Grãos de Luz, realiza oficinas de identidade, arte, artesanato e economia solidária, tendo como eixo central a tradição oral e a cidadania. Além disso, visa a integração entre o velho e o novo de modo que a ancestralidade e a identidade sejam pontos centrais na celebração da vida.

O projeto Grãos de Luz e Griô educa 130 crianças, adolescentes e jovens em oficinas de identidade, arte, artesanato e economia solidária. As pesquisas e vivências das atividades elaboram saberes e produzem materiais didáticos para a caminhada dos Griôs de 14 grupos culturais da Chapada Diamantina. Os griôs e as oficinas mobilizam 15 escolas e comunidades, 50 educadores municipais e, aproximadamente, mil crianças e adolescentes para a elaboração e vivência de projetos pedagógicos que integram identidade, ciência, arte e tradição oral no currículo de educação municipal.

Os líderes de todas as idades envolvidos participam do registro e da sistematização de conteúdos e práticas educativas para legalização do currículo por meio dos conselhos municipais. O Grãos de Luz e Griô investe na construção de uma rede local entre empreendedores, poder público, conselhos municipais, comunidade escolar e grupos culturais, propondo e construindo soluções para problemas relacionados ao patrimônio simbólico e a auto-estima da população de baixa renda.

A cidade de Lençóis possui uma população de aproximadamente 10 mil habitantes, em sua maioria afrodescendentes, onde 49,8% vive abaixo da linha da pobreza (renda per capta familiar menor que 1/2 salário mínimo, IBGE 2000), principalmente nas comunidades rurais, isoladas geograficamente.

Em tempo: Griô é uma figura mítica africana, um mestre que caminha por todas as partes levando e compartilhando seu rico conhecimento. Essa biblioteca viva da tradição oral , entrega a sua corporeidade para ensinar e preservar a história de seu povo. O Grãos de Luz e Griô reinventa o griô e sua pedagogia reconhecendo a riqueza cultural da magia, do encanto, do poder da sabedoria ancestral de sua tradição oral traduzindo-a, reinterpretando-a e integrando-a com as ciências, com o universo da escrita e com a economia local. Desde 2001, o Ponto tem um papel fundamental no município de Lençóis, realizando uma integração entre um desenvolvimento mais justo que valorize a educação e a cultura oral e que refaça o fio da história, beneficiando prioritariamente a comunidade.

As oficineiras Iraci Oliveira e Martha Lemos chegaram a sede do Grãos de Luz e Griôs e foram recepcionadas pelo habitual cortejo da equipe do Ponto, que acontece semanalmente as terças. Conduzidos por Márcio Caires (o articulador local, conhecido como Velho Griô) o grupo sai de suas salas de trabalho para iniciar o dia com muita música em um momento de encontro e celebração. O cortejo chega ao lugar onde aconteceu a Roda: um jeito diferente de começar a atividade.

Depois das apresentações do Pontão e do Pólis, os jovens participantes da roda, cerca de 25 pessoas, começam a contar o que fazem no Ponto, como a oficina de biodança, dança afrocontemporânea, Trilhas Griôs e teatro, retalhos e bonecos de pano e artes gráficas.

A oficineira Martha Lemos convida o grupo a pensar sobre o que há de mais valioso na convivência, assim como os seus principais desafios. Os participantes se dividiram em três grupos para pensar sobre o assunto e depois compartilhar suas impressões para o restante das pessoas. “Em relação à convivência o que eu sinto que é forte a minha escuta. Eu sei escutar, sei compreender o espaço pelo silêncio, pela presença, pelo sentimento de estar. Isso é uma grande força que tenho e que trago como contribuição. Meu desafio, se for considerar as inspirações dos deuses, é que todos esses caminhos sejam muito bem feitos ampliados de muita qualidade e integridade no que fazemos, e isso se reflete no momento em que os grupos criam as cenas”, refletiu Márcio Caires, o Velho Griô.

O grupo 3 criou um painel com desenhos e frases que abordaram a questão dos limites nas relações, as diferenças na convivência e a necessidade de apreender esses limites para a vida toda. Ideias compartilhadas para o bem, o bom e o conviver. “Às vezes a pessoa tem medo por não saber se colocar na Roda, na conversa, no diálogo. Cada um tem seu ponto de vista e existe várias ideias: você as lança e acha que a sua é a mais importante. Mas tem que ouvir os outros e respeitar as outras opiniões”, explicou Aline Neves Viana.

O grupo 2 também criou um painel com um desenho que representou como conquistas, o respeito, brincadeiras, aprendizagem e o conhecer outras pessoas; como desafio surgiu a conciliação do tempo. Já o grupo 1 realizou uma performance que retomou algumas cenas do espetáculo Mãe D’Água, montada pelo ponto há alguns anos. Uma vivência coletiva onde todos em duas filas realizam movimentos que se parecem com as ondas do mar. Na cena, uma mulher dá a luz a uma criança que é acolhida e amada por todas as outras pessoas que compõe a performance. Já em pé e fortalecido, este jovem, antes uma criança recém nascida, faz o caminho de volta puxado por sua ‘mãe’ no outro lado da ponta. O jovem vai por entre a fila que permanece no movimento das ondas do mar, embalado pela canção que celebra o orixá Ewá, uma divindade feminina muito sábia que possui uma história muito bonita de reencontro.

Nesse momento, Martha Lemos relembrou os símbolos produzidos até esse estágio da Roda: cartazes, painéis e o novelo azul, que representou o cordão umbilical. ” Enquanto transitava entre os subgrupos, percebi uma demanda clara: quase todos se expressaram dizendo da importância do ouvir e do falar”, destacou Martha.

Mapa da Convivência

O grupo reflete e deixa sua contribuição sobre cultura de paz e de guerra. Como paz surgem valores como a harmonia no cotidiano, o amor, a comunidade. No outro extremo, vem a tona questões como disputas de objetivos, reprodução do passado e as constantes guerras.

A oficineira Iraci Oliveira convida os participantes a novamente se reunirem nos grupos para contarem histórias de paz, seguindo a tradição de preservação da oralidade do Grão de Luz e Griôs. O grupo 2 escolheu contar a história de um guerreiro lençoiense, Obá, um guerreiro negro que lutou por um mundo novo de igualdade entre as etnias e, principalmente, o reconhecimento da cultura negra no Brasil. O grupo 3 levou uma cadeira para o centro da Roda, onde cada participante contou um pouco de sua própria história. A isso se seguiu um momento de silêncio, apreciação, respeito da dignidade individual e grupal. O grupo 1 fez uma conversa com a boneca Voinha que relembrou histórias ancestrais: “É um prazer poder estar aqui nessa roda para contar história, poder conhecer aqui esse grupo, todo mundo gente boa. Pois muito bem, vou falar de guerra e de paz. Me lembro logo de meu povo, que veio lá da África, eita povo guerreiro, é… uh hum, me lembro de um menino chamado Zumbi. Zumbi dos Palmares como ficou conhecido, né? Todo mundo conhece Zumbi? Pois então, eu não conheci não, mas ouvi falar… ouvi falar demais… mas aí acontece que o que eu ouvi falar de Zumbi, eu não sei até onde tem validade mas, ouvi falar que foi um homem que lutou, que fez guerra, mas foi pela paz. Ele guerreou pra poder viver em paz. Imagine só o povo todo sendo maltratado, escravizado, um homem desse teve de lutar e de guerrear como Líllian falou muito bem, pra ter paz tem que ter guerra, tem de ter luta todo dia. E minha amiga disse que por aqui também teve que ter guerra, o povo guerreou para pode viver em paz”, contou Voinha. O momento é encerrado com o sentimento da forte presença e benção dos arquétipos femininos: força, vitalidade, energia, ação, fecundação.

” Acho que aqui no Grãos a gente trabalha muito com a questão do cooperativismo e isso fica completamente visível nos trabalhos que fazemos. O que mostramos na Ação Griô é exatamente essa experiência de trabalhar cooperando um com o outro e trabalhando muito a ancestralidade. Então entendo sempre como ponto de partida a questão da identidade e da ancestralidade. A história de vida como construção do país como um todo. Porque nós somos individuais, mas somos também o coletivo” , destacou Eniele Santos da Silva sobre as ações de paz do Ponto.

A Roda, já se encaminhando para o seu final, começa a formular as propostas dos jovens para a construção de políticas públicas. Surgem ideias como: ampliar o desenvolvimento das ações comunitárias; criar propostas conjuntas entre os pontos de cultura para a melhoria na qualidade do trabalho e ampliação do setor responsável por convênios e editais públicos na área de cultura do MinC; emancipar o Programa Cultura Viva como política pública cultural nacional.

Como o objeto símbolo, o grupo acolheu a sugestão de Líllian Pacheco, que indicou a cobra de pano na qual todos estavam sentados. O objeto representou o encontro, a confraternização e a experiência pedagógica compartilhada com todos. A cobra de retalhos foi produzida pelo grupo na Oficina de Retalhos. Foi o símbolo da transição e transformação ocorrida na ação grupal que conecta a dramatização anterior sobre a Mãe Água (água viva) – símbolo de fluidez, geração, dores de parto, favorecimento da vida, acolhimento e circularidade, ludicidade e natureza selvagem.


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