Seguindo seu caminho na região nordeste do país, a equipe de oficineiras do Pontão, promoveu mais uma Roda de Convivência e Cultura de Paz, desta vez na cidade de Feira de Santana, na Bahia, com o Instituto Odu Odara, que mantém o Ponto de Cultura Capoeira da Paz. O Instituto Odu Odara surgiu em 2005 com o objetivo de promover e valorizar a cultura brasileira, inserindo-a em espaços formais e informais de educação, possibilitando aos sujeitos da dinâmica educacional, a apropriação didático-pedagógica das expressões culturais em situações reais de uso e representação. O grupo pratica diversas formas de expressão sociocultural: capoeira, samba de roda, maculelê, puxada de rede, dança afro, jogos e brincadeiras, teatro, cineclube e produção de audiovisual.
A equipe de trabalho conta com 15 integrantes que se articulam com 20 líderes de grupos culturais em Feira de Santana e região, 12 escolas da rede pública e duas da rede privada. O público do Instituto Odu Odara é constituído de comunidades rurais, grupos culturais, estudantes, crianças, adolescentes, jovens, idosos e outros em situação de vulnerabilidade social. Realizam diversos projetos educativos para a valorização e disseminação da cultura de paz. Como o encontro Xirê nas escolas públicas; as quintas Xirê na Praça, que reúne representantes de diversos grupos de capoeira da região; o intercâmbio Cultural Rodas Populares, quando reúne com os grupos de capoeira para apresentações de capoeira e outras expressões culturais, oficinas e cursos; o encontro Papoeira – Fórum Permanente de Avaliação da Capoeira – com a participação de mestres, contramestres, professores e alunos para discutir situações de violência verificadas em eventos e rodas de capoeira na cidade e apontar soluções para os problemas.
Todas essas ações estão ligadas a campanha Cultura da Paz Capoeira, desenvolvida junto à comunidade capoeira de Feira de Santana e que tem como objetivo incentivar a cultura de paz e diminuir as distâncias entre os grupos de capoeira. Em tempo: a capoeira é a expressão cultural de diversos povos africanos que se misturaram em terras brasileiras, como uma filosofia de vida. Considerada subversiva, a luta ficou proibida no Brasil até 1930. Em 18 de julho de 2008, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a reconheceu como patrimônio cultural brasileiro, em cerimônia realizada no Palácio Rio Branco, em Salvador.
Um fato chama a atenção para a relação capoeira/cultura de paz: durante a realização da TEIA, em novembro de 2008, os integrantes da Capoeira da Paz, que ainda não eram um ponto de cultura em termos oficiais, manifestaram a equipe do Pontão a vontade de que fosse realizada uma roda por lá. O interesse mútuo sobre o tema aproximou os gestores dos pontos e deu-se a parceria para a roda de convivência em Feira de Santana.
A Roda comecou com a explicação por parte das oficineiras do que é o Pontão e sua trajetória, além das perspectivas para a próxima fase do projeto. Martha Lemos convida a todas e todos a refletirem sobre o que, para cada um, existe de mais valioso na convivência grupal, o que há de conquista na relação no ponto e em outros espaços onde convivem. E, a seguir, pensar qual o maior desafio diante do tema da convivência. Os participantes se subdividem em três grupos, onde montam, coletivamente, uma cartografia da convivência local de maneira espontânea. Nos subgrupos, os participantes refletem e conversam sobre a cultura de paz e também passam a conhecer mais uns dos outros.
Começam as apresentações dos conteúdos discutidos nos grupos. Robson da Silva, do grupo 1, fala das conquistas: “Falar do lado social na capoeira, o carro chefe do nosso trabalho, é resgatar os nossos jovens e sua identidade. Não dependemos das elites porque nós não dependemos de verbas para fazer o nosso trabalho, trabalhamos com o que temos. Desenvolvo o trabalho onde nasci e fui criado e a comunidade me vê com outros olhos; meus alunos me ajudam e assim crescemos. Capoeira é uma filosofia, um método de vida”. O grupo 2 começa com uma cantiga de capoeira e Maful prossegue: “Precisamos interagir, seja com pais e filhos, professores e alunos, mestres e discípulos. Nós precisamos o tempo todo dessa troca que é a própria convivência.O desafio é justamente esse, trabalhar na articulação dessa interação entre as diferentes gerações seja em casa, na família, na escola, no nosso grupo cultural, ou entre as diversas ações sociais e culturais”.
“Trabalho no centro de apoio ao adolescente. Capoeira era vista de forma pejorativa. Estou muito feliz de ver a capoeira hoje como educação, formando cidadãos. Vendo a interação e que a capoeira é sim uma maneira de educar. Antes, logo quando começamos a trabalhar a coisa que víamos era o capoeirista ensinando o menino a brigar na rua, de uma maneira violenta. Hoje mudou, está profissionalizando e com uma preocupação grande com o que vai formar. Onde tudo começa é na educação, a base de tudo… e tem que saber ouvir porque se não souber ouvir não adianta” , complementa Eunice Vasconcelos.
Já o grupo 3, sem falas, começa a cantar e tocar os instrumentos sempre presentes na roda de capoeira. “Utilizamos a linguagem mais característica da capoeira, que é cantar, ela chega com mais força, com muito poder, representa o trabalho que cada um desenvolve, completa Josivaldo de Oliveira, o Bel.
Após a apresentação das discussões, os participantes iniciam a construção do Painel de Cultura de Paz e de Guerra. O grupo 1 monta o painel Igualdade e Desigualdade Social e Utopia. No grupo 2 Maria Maful explica que as imagens, podem ser vistas por vários ângulos, e nenhuma é definitiva e que a imagem que mostra aparentemente a construção de uma riqueza, pode também representar, se mudar a perspectiva de análise, a concentração de riquezas nas mãos de poucos. O grupo 3 construiu o painel Diversidade (in) Tolerância.
Chega o momento de propor e pensar sobre políticas públicas. Bel explica que o fato da capoeira ser considerada patrimônio imaterial brasileiro deve vir acompanhado também de políticas públicas de incentivo e não apenas de discursos de reconhecimento. “Eu não estou dizendo que a gente quer que o governo dê dinheiro para gente, o que eu afirmo é que nós fazemos coisas muito boas há muitos anos, mas com toda a dificuldade do mundo. Queremos saber se agora com a capoeira como patrimônio cultural no Brasil, nós teremos direito a determinado recurso que nos permita fazer o que fazemos com mais conforto. Quero registrar para que meus amigos de capoeira não me interpretem errado: eu não defendo que o governo dê salário para gente não. O que defendo é que eu não vou precisar tirar dinheiro do leite da minha filha para poder fomentar o trabalho social que realizamos na comunidade”.
Como indicações de políticas públicas, surgem: a educação continuada para a cultura de paz; efetivar a política de tombamento da capoeira para manter os projetos; criar condições de formação de um bloco de capoeira na avenida para o carnaval fora de época (micareta); apresentar projetos culturais ao poder público local para expandir e fortalecer a capoeira nos espaços públicos e privados locais; reverenciar os mestres de capoeira com programas de valorização e reconhecimento de seus saberes na comunidade, escolas e entre os capoeiristas.
Repleta de signos e significados, a roda de capoeira foi o símbolo desta atividade. O atabaque foi o comunicador do som. Junto ao berimbau, as palmas ditaram o ritmo e o show se completou com o jogo da capoeira. Cena e cenário. Palco de encontros e assimilações. Jogo de compreensões e detalhes de convivência, ação que reflete a participação comunitária e pedagógica. Tudo isso foi escolhido como símbolo dessa Roda de Convivência.
Para saber mais sobre o Odu Odara e a Capoeira da Paz, acesse: http://institutooduodara.blogspot.com
- Todos se preparam para o início da Roda
- Divididos em grupos, os participantes conversam sobre a convivência
- Todos trocam impressões e ideias sobre a cultura de paz
- Jovens contróem o Painel Cultura de Paz e de Guerra
- Pessoas de todas as idades participaram da Roda
- As crianças também marcam presença no Ponto de Cultura Capoeira da Paz














Um Comentário
Fantástica a proposta da discussão sobre a violência, pois isso é um tema que preocupa, a todos não só na bahia + sim em todo o Brasil, o slogan capoeira da paz, por si só já remete os capoeiristas a refletirem seria mente o que defato eles estão fazendo com a nossa capoeira muito obrigado a todos do Odu Odara e os mestre e representantes de grupos de capoeira que participarão e contribuirão para que a paz prevaleça.
Salve a Capoeira!
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[...] Seguindo seu caminho na região nordeste do país, a equipe de oficineiras do Pontão, promoveu mais uma Roda de Convivência e Cultura de Paz, desta vez na cidade de Feira de Santana, na Bahia, com o Instituto Odu Odara, que mantém o Ponto de Cultura Capoeira da Paz. O Instituto Odu Odara surgiu em 2005 com o objetivo de promover e valorizar a cultura brasileira, inserindo-a em espaços formais e informais de educação, possibilitando aos sujeitos da dinâmica educacional, a apropriação didático-pedagógica das expressões culturais em situações reais de uso e representação. O grupo pratica diversas formas de expressão sociocultural: capoeira, samba de roda, maculelê, puxada de rede, dança afro, jogos e brincadeiras, teatro, cineclube e produção de audiovisual. Saiba mais. [...]