Roda de Convivência e Cultura de Paz chega às aldeias guaranis em SP
As aldeias guaranis Tekoa Pyau e Tekoa Krukutu receberam os oficineiros da Roda de Convivência e Cultura de Paz do Pontão de Cultura do Instituto Pólis, em 9 de outubro. Os representantes das aldeias estão ligados ao Ponto de Cultura Krukutu – IDETI que atua junto à estas aldeias. A atividade envolveu 22 jovens, algumas crianças e dois bebês que estavam com suas mães.
A proposta dos Pontos de Cultura Guarani para as duas aldeias foi apresentada pelo IDETI a partir de uma solicitação dessas comunidades, como forma de fortalecer o conhecimento tradicional, envolver as novas gerações no fazer cultural, divulgar o conhecimento e a tradição indígena para um público amplo e criar uma rede de intercâmbios entre os vários povos indígenas. Fundado em 2006, o Ponto de Cultura atravessa agora o desafio de continuidade e sustentabilidade. Lá estão previstas oficinas de artesanato tradicional que têm como objetivo revitalizar as técnicas e o conhecimento tradicional do povo guarani assim como articular as lideranças das aldeias existentes em todo o estado de São Paulo, principalmente o litoral.
Os Guaranis são o povo originário de uma terra onde hoje está todo o estado de São Paulo. Ocupam toda a faixa litorânea sul do Brasil há milhares de anos. Conhecem cada curva de rio, cada planta e animal, cada trilha pela mata. Educam seus filhos dentro da tradição, passada de geração a geração, e permanecem fiéis aos seus costumes e crenças. A aldeia Pyau, onde aconteceu a roda de convivência, está localizada em um território cedido, um morro de terra vermelha com casas feitas de retalhos de madeira, aos pés da entrada do Parque Estadual do Pico do Jaraguá. A comida é feita e consumida de maneira comunitária. As crianças são alfabetizadas em português após os sete anos de idade, mas os jovens têm uma grande dificuldade para falar o idioma. “O que os jovens guaranis mais falam é de uma terra onde haja mata, rios, lagos, onde possam exercer seu modo guarani de ser plenamente, fica a questão: essa terra é aqui no plano terrestre ou não, pois na cultura guarani, tudo isto nos espera do outro lado – na terra sem males. Mas sinto que esta nova geração sente-se perdida porque o modo de viver de antigamente já não é possível. Como aliar então o seu modo de ser, sua religião, sua tradição a vida que levamos hoje, este é o grande desafio”, relata Inimá Krenak – coordenadora do ponto de cultura sobre os sonhos da juventude guarani.
O início da Roda aconteceu com a apresentação dos nomes de todos os presentes, apesar da dificuldade de comunicação dos jovens com os oficineiros. Na cultura guarani todos os nomes têm um significado e isso é muito importante porque é uma marca de identidade e uma herança para toda a vida. Após, foi apresentado ao grupo o caderno criativo, sendo informado que a qualquer momento poderiam registrar seus desejos e impressões no caderno. Este método teve adesão imediata.
Na sequência, os jovens foram convidados então a criar um mapa da convivência, de forma a relatar os principais desafios, problemas e sonhos para as aldeias. Entre os desafios, surgiu a necessidade da divulgação do modo de vida dos guaranis para a população geral e descoberta de novas maneiras de fortalecer a cultura guarani. Entre os pontos positivos que observaram a proximidade com o Parque do Jaraguá, onde todos podem desfrutar da natureza (que já não está tão presente nas aldeias); a realização das oficinas de artesanato e a convivência comunitária fortemente presente. Em relação aos problemas, a aproximação de igrejas evangélicas nas aldeias que pregam a conversão, também apontam a falta de interesse da juventude em geral em participar das oficinas e atividades foram algumas das questões levantadas.
Os oficineiros estimularam os jovens a refletir sobre o sentimento de comunidade na vida em grupo e o que isso tem a ver com a cultura de paz. Para o guaranis ter qualidade de vida em um espaço comum e próprio é ter paz, assim como a prática comunitária de consulta mútua que tranquiliza os moradores da aldeia, respeito mútuo e dignidade. Além disso, ao invés de uma relação capitalista e mercantilista, conviver também é ter uma atitude de paz para a juventude guarani.
O objeto simbólico presente na roda a todo momento, prinicipalmente entre as jovens guaranis, foi o cachimbo, o petygwá. Apesar de formas e nomes diferenciados, a finalidade do cachimbo é a mesma em todas as culturas, transmutar energias e as levar até o Grande Mistério. O cachimbo auxilia em muitos movimentos de cura, condensa as palavras de quem “pita” com ele, e as transforma em algo visível, para depois serem levadas aos quatro cantos do mundo e ao Grande Mistério.
Diante desta realidade, qual seria a possível continuidade do trabalho do Ponto de Cultura após a experiência da Roda de Convivência? Essa foi a pergunta lançada aos jovens.
Como expectativa responderam – sempre em guarani, traduzidopara o português por Tupã, em uma dinâmica que permeou todo o encontro – que de alguma maneira esperam que o trabalho com o ponto de cultura possa transmitir a cultura e os valores do povo guarani e, a partir daí, ter um contato maior com os outros pontos de cultura.
A equipe do Pontão se disponibilizou a entregar o material bruto da filmagem e fotos para o ponto como uma forma de colaborar neste desafio de aumentar o fluxo de informação. Além dos convites para participação nas sessões de diálogo no Instituto Pólis e possível encontro das aldeias com outros jovens no Pólis, onde os guaranis possam trazer informações sobre sua cultura e modo de vida.
A Roda de Convivência e Cultura de Paz nas aldeias foi marcada por uma comunicação diferenciada, onde o código predominante na fala era o guarani, entre a juventude guarani, e o português para com os oficineiros. Porém, o silêncio e as diversas formas de expressão continham um clamor por parte dos jovens indígenas: Queremos ser conhecidos para sermos respeitados!
Para saber mais, acesse www.ideti.org.br

2 Comentários
Gostaria de saber o significado de KRUKUTU em tupy-guarani…Obrigado.
Boa noite!!
Gostria de saber o que significa krukutu ou kru=ku=tuu