Os gregos, antigos sonhadores de mundos, diziam que a poesia era a causa de qualquer coisa que passava do não-ser ao ser e não apenas o trabalho do poeta. Neste sentido, o Pontão tem a sua poética também. Quando começamos, há um ano, já havia a presença cultural do Instituto Pólis na reflexão e no debate público, na criação de redes culturais, enfim, no fortalecimento da cidadania cultural das localidades. A Cultura de Paz acontece como um desdobramento necessário e natural do seu trabalho, como aquele ingrediente vital para desencadear um processo ou abrir um novo ciclo. Não há dúvida de que a cultura brasileira, mesmo com o acolhimento já cantado em verso e prosa, é marcada fortemente pela violência no cotidiano, das estruturas de poder, violência simbólica e do imaginário. A Cultura de Paz veio para mostrar outras formas de resolução do conflito, novas atitudes, filosofias de vida e paradigmas de mudança.Dessa forma, o Pontão de Convivência e Cultura de Paz chegou para contribuir no fortalecimento de uma cultura de paz nos Pontos de Cultura, reforçando iniciativas e atitudes de paz, propondo e sistematizando tecnologias socioculturais de convivência, já presentes nas práticas dos pontos de cultura, que já praticam a cultura de paz.
O Pontão chegou para estabelecer pontes entre redes, destas com os fóruns locais, destes com instituições governamentais – afirmando valores, princípios, formas de resolução pacífica de conflitos. Chegou também para potencializar pontos e construir políticas públicas de forma compartilhada.
Nesse primeiro ano começamos a desenvolver trabalhos em várias frentes: partimos para os Pontos de Cultura para ouvir os jovens, em 20 lugares diferentes nas várias regiões do país. Ouvimos para fortalecer práticas nos vários territórios, auscultamos culturas e poéticas locais, abrimos os braços para a subjetividade de pessoas, para discursos da tradição e das modernas manifestações culturais; auscultamos os desafios de ser jovem, a dificuldade no conviver e no fazer; andamos juntos por trilhas, ouvimos histórias dos griôs, nos comunicamos com os surdos, partilhamos a ingenuidade de crianças em alguns pontos, ouvimos os indígenas com atenção, compartilhamos da magia quilombola, voamos com os passos dos capoeiristas, nos emocionamos com a poesia urbana de jovens do hip hop. Ao todo mais de 500 pessoas, reunidas em rodas de dezenas de participantes conversaram de paz, escolheram objetos-símbolos dos seus pontos, fizeram mapas da convivência, identificaram atitudes de paz, sugeriram políticas públicas e novas formas de relação dos órgãos públicos com a cultura do lugar, a partir do empoderamento criativo. Ficamos maravilhados com a adesão aos encontros, a disposição para a conversa, a aceitação de nossos educadores, o reconhecimento de nosso trabalho. Uma inesquecível experiência de ouvir, muitas vezes o silêncio, outras a palavra agressiva, o rumor poético do lugar, a vida que se multiplica nas redes.
Participamos da Teia 2009, contribuímos para o debate, e a mobilização do GT de cultura de paz; participamos de ações e articulações da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura e da Comissão Paulista dos Pontos de Cultura, facilitando diálogos, produzindo ideias, estimulando debates com os Pontos de Cultura, como foi o caso das mudanças da Lei Rouanet, necessária para a convivência da vitalidade cultural do Brasil com as novas oportunidades de financiamento público.
Realizamos também ao longo destes 12 meses, várias sessões de diálogo na sede do Pontão e em outros Pontos de Cultura, envolvendo ponteiros e também a localidade, em reflexões sobre inclusão dos jovens, testemunhos de enfrentamento da situação de uso de drogas com ações de cidadania cultural, cultura de paz, educação e políticas públicas.
Realizamos nos pontos uma pesquisa sobre convivência e cultura de paz identificando uma vitalidade de paz impressionante, já presente nos Pontos de Cultura, expressa em atitudes, valores e práticas. No futuro, podemos dizer certamente em relação aos pontos que “aqui se faz cultura de paz”.
O Pontão de Cultura transformou a paisagem cultural do Pólis, ao acolher jovens dos Pontos de Cultura, da Comissão Paulista, do próprio Ministério da Cultura, para debates, busca de informações, articulações e parcerias.
A partir do Pontão enviamos publicações culturais do Pólis e de nossas redes internacionais para mais de 20 Pontos que visitamos e outros que solicitaram. Criamos um site para apresentar o resultado das auscultas nos pontos e debates apresentados pelo Pontão, além de mostrar toda a nossa programação cultural. Através do site do Pólis multiplicamos a nossa visibilidade no país e em redes internacionais das quais o Instituto participa.
Foi uma apropriação lenta da gestão compartilhada, com desafios enormes, próprios dos limites gestionários do próprio edital, o rigor jurídico que muitas vezes engessa ações, frutos das leis do país ainda não preparadas para o tempo cultural, que é rápido, exigente, criativo.
Sentimos que falta ainda mais diálogo, a desburocratização de procedimentos de gestão governamental, agilidade da máquina pública, enfim a operação da política pública compartilhada. A própria entidade estranhou a presença ágil e criativa do Pontão, sem entender num primeiro momento os seus alcances e dinâmicas.
A qualidade cultural, política, poética e existencial deste trabalho deve-se a participação e envolvimento dos seus técnicos, ativistas e colaboradores voluntários, como foi o caso do Grupo Consultivo do Pontão que deu muitas ideias, opiniões, sugeriu caminhos de trabalho. Avançamos na criação de uma artemetodologia das Auscultas socioculturais – ouvir os rumores internos com arte, participação, construção de símbolos grupais, expressão dos sonhos presentes e visões de futuro, com valores e afirmação da cultura do ser e sugestão de novos caminhos- que continuaremos a desenvolver nos próximos anos. Participamos ativamente da articulação de pontos para que os Pontos de Cultura se constituam como política pública permanente, de Estado. Realizamos aproximações de redes que não se conheciam como entre aquelas mais voltadas para valores, as redes de paz, e as que envolvem jovens em seu protagonismo local, que mal se conheciam e que muitas vezes se desconheciam.
Certamente não estivemos sós nesse primeiro ano e devemos agradecer a muita gente: aos colegas do Instituto Pólis e a toda a equipe de cultura, à Célio Turino e à equipe da Secretaria de Cidadania Cultural, à Cecilia Garçoni e à representação regional do Minc em São Paulo, às CPPC e CNPC, ao Ipso, a Associação Palas Athena, a Rede Mundial de Artistas, a Guilherme Almeida, a Marisa Greeb, À Casa de Franciscos, a todos os colaboradores voluntários, particularmente ao Grupo Consultivo e a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, ajudaram no trabalho desse primeiro ano.
A todos a nossa energia de paz e reencantamento. Como Modigliani afirmava sobre o artista, acreditamos que o nosso real papel é salvar o sonho. Por isso acreditamos que a cultura de paz e convivência deverá ser a poética desses novos tempos de transição para um mundo mais justo e feliz.
Equipe do Pontão de Convivência e Cultura de Paz
PS: O um ano de vida do Pontão foi comemorado com uma animada festa junina que reuniu equipe, colaboradores, amigos, enfim, gente de paz. O arraiá celebrou as boas sementes plantadas neste primeiro período de trabalho.
Confira abaixo algumas imagens desta grande festa.